O que é preciso para mudar de opinião?

O que seria preciso para mudar sua ideia a respeito de um assunto sobre o qual você tem certeza de que está certo? Ou, quem sabe,  convencer-se de que seu pensamento original estava errado? Há quem diga que nada jamais mudará seu modo de pensar.

Sempre que alguém proclama isso, a pessoa não está seguindo um raciocínio lógico, mas baseando suas opiniões em coisas sem evidências.
De fato, recusar-se a considerar evidências contrárias é a própria definição de mente fechada. Deveríamos sempre estar abertos para considerar evidências contrárias, e admitir a possibilidade de estarmos errados. É irracional manter uma posição com tanta força que não se admita nem mesmo a possibilidade de erro.

O problema central, aqui, é que toda vez que alguém fala que nada o convencerá de que está errado, estabelece uma posição não falseável, e a falseabilidade é um dos pilares da ciência. Falseabilidade significa, simplesmente, que seria possível refutar uma teoria/hipótese se ela estiver incorreta. A teoria da relatividade geral é um exemplo desse conceito.

Esse teoria afirma, basicamente, que todo corpo com massa distorce o espaço-tempo. E é falseável porque a descoberta de um único objeto com massa que não distorce o espaço-tempo seria o suficiente para jogar a teoria no lixo.

Oponentes de organismos geneticamente modificados, das vacinas, da medicina moderna e do aquecimento global rotineiramente desconsideram qualquer estudo que se oponha à sua visão, e, quando perguntados por que ignoram esses estudos, geralmente afirmam que os autores tinham segundas intenções, foram pagos por multinacionais, querem esconder a verdade ou querem criar a doença para vender a cura. Esta não é uma resposta racional.

Um excelente exemplo dessa rejeição cega dos fatos aconteceu recentemente, quando uma grande revisão de estudos sobre homeopatia não conseguiu encontrar qualquer evidência de que a homeopatia funcionasse.

Apesar do fato de que este trabalho usou um grupo independente para evitar vieses, a resposta dos homeopatas foi rápida e previsível: eles atribuíram isso a uma conspiração das empresas farmacêuticas e do establishment médico para suprimir a homeopatia. Esta não é uma resposta racional. O ônus da prova está com os homeopatas, que ao fazer a acusação impõem a si mesmos o dever de apresentar evidências convincentes de que a revisão é o resultado de uma conspiração. A resposta racional é considerar as evidências apresentadas no trabalho, em vez de descartá-las como fruto de uma conspiração.

A literatura científica atual mostra muito claramente que as vacinas não causam autismo. Por ironia, o único estudo que concluiu que vacinas causavam autismo foi feito por um médico britânico chamado Andrew Wakefield que participava de uma conspiração contra a vacina tríplice (sarampo, caxumba e rubéola) da época. Apesar de o jornalista Brian Deer provar, com evidências, que todo o estudo feito pelo médico foi fraudulento, ainda há pessoas que acreditam na conspiração da conspiração e acusam o jornalista de ter sido comprado pela indústria farmacêutica.

Andrew Wakefield
Andrew Wakefield

 

Brian Deer
Brian Deer

Já está muito bem estabelecido que vacinas não causam autismo, mas isso não me dá o direito de proclamar que nada jamais me convencerá de que alguma vacina possa causar autismo. Embora seja extremamente improvável que os estudos que mostram que as vacinas não causam autismo estejam todos errados, como cientista e pessoa racional, devo reconhecer que existe essa possibilidade.

Então, se você me perguntasse o que seria necessário para eu mudar de ideia sobre vacinas e autismo, eu responderia que seriam necessários vários estudos de alta qualidade, cuidadosamente controlados, com um número significativo de observações que encontrassem ligação entre os dois. Além disso, seria necessário haver uma explicação plausível de por que tantos estudos anteriores indicarem que vacinas não causam autismo.

Os cientistas estão interessados em entender, da melhor maneira possível, como as coisas são ou não são, enquanto os anticientistas e pseudocientistas tendem a se importar apenas em promover suas visões pessoais, mesmo que isso signifique cometer falácias, propor mecanismos misteriosos e supor que toda a comunidade científica está envolvida em um enorme conspiração.

Fonte: http://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/03/29/sutil-arte-de-mudar-de-ideia

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