Desmonte da ciência ameaça o país

Quando falamos em cortes de bolsas de estudos, quem não é da academia imagina logo que o governo está desperdiçando dinheiro ao pagar para um bando de estudantes discutirem o sexo dos anjos, enquanto outros cidadãos “trabalham de verdade”. Qual estudante de pós-graduação nunca ouviu a frase: “Mas você só estuda? Não trabalha? Para que serve isso que você estuda?”

O pós-graduando é um profissional, e trabalha muito. E o trabalho que realiza, pago com uma bolsa de estudos, pode transformar o destino de um país. Da mesma maneira que um engenheiro se forma na faculdade, e consegue um emprego em uma empresa, o cientista se forma e consegue uma bolsa de estudos para seguir carreira acadêmica.

O fato é que pós-graduação é um emprego. E precisa ser paga pelo governo, justamente porque o governo precisa garantir a geração de conhecimento. Se tecnologias podem nascer em empresas, a pesquisa básica é paga por fundos governamentais. É assim no Brasil e no resto do mundo. O governo federal dos Estados Unidos, por exemplo, é o maior financiador de pesquisa biomédica do planeta.

Não existe desenvolvimento tecnológico sem ciência básica, e não existe ciência básica sem alunos de pós-graduação. E não existe aluno de pós-graduação sem bolsas de estudo. O conhecimento gerado por estes alunos pode ser a diferença entre vencer ou sucumbir a uma epidemia, ou descobrir ou não um princípio que poderá levar à criação de tecnologias e riqueza. Quando um país corta pela metade o investimento em ciência e some com as bolsas de pós-graduação, está na verdade, assumindo graves riscos no presente e sabotando seu futuro.

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A escolha de não investir, hoje, em ciência implica não ter acesso às melhores tecnologias médicas daqui a dez anos, aos melhores produtos de agronegócio, aos modelos mais sustentáveis de agricultura e de preservação ambiental etc… Os resultados dos cortes só vão atingir a população quando for tarde demais.

Outra confusão bastante comum é que deveríamos recorrer a investimentos privados em ciência. O setor privado pode vir a desempenhar um papel relevante, mas ciência fundamental paga integralmente, ou mesmo majoritariamente, por doações e investimentos privados é coisa que não ocorre em nenhum lugar do mundo. A ciência básica envolve riscos e prazos que o investidor privado provavelmente não vai querer, ou poder, assumir.

A partir do instante em que uma técnica como alto potencial de aplicação comercial, como o CRISPR-Cas9, existe, é fácil encontrar investidores privados para conduzi-la adiante. Mas a pesquisa fundamental que levou à criação da técnica – sobre como bactérias se protegem de ataques de vírus – só interessaria a um investidor se ele tivesse a microbiologia como hobby. É trabalho que foi realizado, sem expectativa de retorno financeiro, em universidades e instituições públicas.

CRISPR-Cas9

Além disso, o conhecimento sobre, por exemplo, de onde viemos, se há outros planetas habitáveis –  como funcionamos em nossa relação com o mundo – pode não ter valor monetário, mas responde a questões que nos definem como seres humanos, animais marcados por uma profunda curiosidade. Essa curiosidade, se estimulada, pode levar a descobertas que mudam nossa relação com o planeta e resultam em novas tecnologias.

Saber que a ação humana vem alterando o clima do planeta pode mudar nossos comportamentos. Saber como os genes funcionam e como manipulá-los pode curar doenças. Saber como os animais se comportam pode alterar nossa visão da ecologia e nossos hábitos: se o animal for um mosquito ou outro vetor de doenças, tal conhecimento pode evitar uma epidemia.

Esses são conhecimentos perseguidos não por empresas que precisam prestar contas a acionistas, mas por universidades e centros de pesquisa, com fomento do governo, e com muitos estudantes de pós-graduação: bolsistas motivados pelo desejo de, simplesmente, aprender um pouco mais.

Fonte:http://revistaquestaodeciencia.com.br/editorial/2019/04/23/desmonte-da-ciencia-e-ameaca-nacao

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