COVID-19 no Brasil: “E daí?”

Quando perguntado por jornalistas na semana passada sobre o rápido aumento do número de casos COVID-19, ele respondeu: “E daí? O que você quer que eu faça? Ele não só continua a semear confusão, desrespeitando abertamente e desencorajando as medidas sensatas de distanciamento físico e confinamento trazidas por governadores estaduais e prefeitos municipais, mas também perdeu dois ministros importantes e influentes nas últimas 3 semanas. Tal desordem no coração da administração é uma distração mortal no meio de uma emergência de saúde pública e também é um sinal de que a liderança do Brasil perdeu sua bússola moral, se alguma vez teve uma.

Mesmo sem o vácuo das ações políticas em nível federal, o Brasil teria dificuldades para combater o COVID-19. Cerca de 13 milhões de brasileiros vivem em favelas, muitas vezes com mais de três pessoas por quarto e pouco acesso à água limpa. O distanciamento físico e as recomendações de higiene são quase impossíveis de seguir nesses ambientes — muitas favelas se organizaram para implementar medidas da melhor forma possível. O Brasil tem um grande setor de emprego informal, com muitas fontes de renda, não mais uma opção. A população indígena tem estado sob grave ameaça mesmo antes do surto do COVID-19 porque o governo vem ignorando ou até mesmo incentivando a mineração ilegal e a exploração madeireira na floresta amazônica. Esses madeireiros e mineradores agora correm o risco de levar o COVID-19 para populações remotas. Uma carta aberta em 3 de maio de uma coalizão global de artistas, celebridades, cientistas e intelectuais, organizada pelo fotojornalista brasileiro Sebastião Salgado, alerta para um genocídio iminente.

O que a comunidade de saúde e ciência e a sociedade civil estão fazendo em um país conhecido por seu ativismo e oposição franca à injustiça e à desigualdade e à saúde como um direito constitucional? Muitas organizações científicas, como a Academia Brasileira de Ciências e a ABRASCO, há muito se opõem a Bolsonaro por causa de severos cortes no orçamento da ciência e uma demolição mais geral da previdência social e dos serviços públicos. No contexto do COVID-19, muitas organizações lançaram manifestos voltados ao público – como o Pacto pela Vida e o Brasil – e declarações e pedidos por escrito a funcionários do governo que pedem unidade e juntaram soluções. Bater nas varandas como protesto durante os anúncios presidenciais acontece com frequência. Há muita pesquisa em andamento, da ciência básica à epidemiologia, e há produção rápida de equipamentos de proteção individual, respiradores e kits de teste.

Essas são ações esperançosas. No entanto, a liderança no mais alto nível do governo é crucial para evitar rapidamente o pior resultado dessa pandemia, como é evidente em outros países. O Brasil como país deve se unir para dar uma resposta clara ao “E daí?” pelo seu presidente. Ele precisa mudar drasticamente o curso ou deve ser o próximo a ir.

Fonte: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31095-3/fulltext

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