Notícia: O vexame da Lancet

A revista médica The Lancet, uma das mais prestigiadas internacionalmente, retratou, a pedido dos autores, o artigo publicado em 22 de maio de 2020 intitulado Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis.

O artigo, quando de sua publicação original, causou grande alarde não por causa de sua conclusão primária, de que a hidroxocloroquina (HCQ) e a cloroquina (CQ) não trazem benefícios para o tratamento de COVID-19, mas principalmente por apontar um alto grau de risco cardíaco e aumento significativo da taxa de mortalidade nos pacientes que receberam a medicação.

A constatação de que a HCQ e CQ simplesmente não funcionam para COVID-19 só confirmava diversos trabalhos anteriores. A esse dado somavam-se a realidade histórica de que esses fármacos jamais haviam funcionado contra outros vírus, e os resultados falhos nos testes pré-clínicos em células do trato respiratório e modelo animal, feitos com camundongos e macacos.

A novidade estava no risco cardíaco, que também já era conhecido, mas não com a intensidade sugerida pela publicação. E talvez, exatamente por não trazer nenhuma grande novidade, as inconsistências que acabaram levando à retratação do artigo tenham passado despercebidas por revisores e editores. Isso, claro, somado à pressa e à pressão para publicar qualquer coisa que diga algo sobre os temas “quentes” do momento. O problema está justamente aí: boa ciência não se faz com pressa, e não deve seguir modismos.

Tão logo o paper foi publicado, diversos autores independentes apontaram erros nos dados que serviram de base para a análise, incompatíveis com a realidade. Números supostamente vindos de hospitais na Austrália somavam mais casos do que os reportados pelo governo australiano. Dados de países da África pareciam incompatíveis com a tecnologia disponível em determinados hospitais. Realmente parecia haver, na melhor das hipóteses, erros e, na pior, fraude.

Três dos quatro autores que assinam o trabalho requisitaram à empresa contratada para a coleta de dados, a Surgisphere, que disponibilizasse os números brutos, e os submetesse a uma auditoria independente. Diante da recusa da empresa, esses autores pediram então a retirada do artigo, já que não poderiam garantir a acurácia dos dados.

O jornal britânico The Guardian investigou a empresa Surgisphere, e a situação só piorou. Trata-se de uma companhia obscura, com apenas seis funcionários, dos quais somente um tem expertise na área médica, além de não ter histórico de geração de dados médicos.

Até aqui parece apenas um – terrível – caso de erro grave ou fraude, de uma empresa incompetente ou desonesta. O problema é que erros originados ali chegaram a grandes revistas médicas, com o potencial de gerar consequências sociais e políticas graves. E isso, durante uma pandemia, além de desastroso, pode ser fatal.

A população ficou desnorteada tentando entender em quem confiar. Proponentes fanáticos da cloroquina já aproveitam a situação para fazer circular teorias conspiratórias. E os cientistas sérios, que nunca defenderam a cloroquina – e continuam assim – de repente estão falando mal de um trabalho que tem conclusões contrárias à cloroquina? Quem é que entende alguma coisa assim? Afinal, vocês são contra ou a favor?

Pois é. A confusão começa aí. Nenhum cientista sério jamais foi “contra” um ou outro medicamento. Apenas trabalhamos com rigor cientifico. Então, se aparece algo cheio de falhas e com suspeita de fraude, mesmo que concorde com o resto da melhor literatura científica disponível, o trabalho deve ser descartado. Em outras palavras, se um estudo mostra que o Sol nasce a leste, mas chega a essa conclusão utilizando dados que pressupõem que a Terra é plana, isso não muda o fato de que o Sol nasce no leste, mas o estudo vai direto para o lixo.

O que não deve ser descartado, portanto, é o resto da literatura cientifica de qualidade, que foi gerada por grupos independentes, que nunca utilizaram dados da Surgisphere. Esses trabalhos, que já citamos aqui, apontam claramente para a ausência de benefícios da HCQ e CQ para COVID-19, e alguns acusam risco cardíaco. Isso não mudou, e novos trabalhos bem conduzidos continuam apontando as mesmas conclusões.

Fonte: https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2020/06/06/o-vexame-da-lancet-e-contagem-de-corpos

Retratação: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31324-6/fulltext?utm_campaign=tlcoronavirus20&utm_source=twitter&utm_medium=social

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