O negacionismo da ciência compromete o futuro do Brasil (08/10/2020)

Somadas as nossas trajetórias como ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Genética (SBG), testemunhamos momentos críticos para nossa democracia, economia e, consequentemente, nosso bem-estar como nação. Vencemos muitos desafios à frente dessa antiga e respeitada sociedade científica. Apesar de tantas experiências e histórias para contar, assistimos estarrecidos ao resultado do negacionismo e da irresponsabilidade do governo atual. São muitos os exemplos de políticas equivocadas e descaso com a verdade, o que coloca em jogo o futuro do Brasil como uma nação livre, democrática e próspera.

Nos assusta como a ciência, a saúde, o meio ambiente e a educação estão sendo tratados de forma autocrática. Em quaisquer destas áreas de grande importância para a sociedade brasileira, vemos inúmeras tragédias anunciadas ou em curso. O Ministério do Meio Ambiente atual está tomando atitudes ou ignorando problemas que estão levando a uma destruição sem precedentes da natureza do Brasil, e pior, sendo plenamente endossado pelo presidente. O imediatismo governa as ações desses gestores, como se o fogo que queima as nossas matas e campos não virá cobrar a conta no futuro, impactando a nossa economia pelos prejuízos que teremos a longo prazo nos setores da agricultura, saúde e meio ambiente. Essa conta virá, como inúmeros estudos científicos de brasileiros e estrangeiros indicam.

O meio ambiente agoniza. A alma dos nossos índios está sendo vendida num leilão (parodiando Renato Russo) junto com as riquezas da nossa terra, consideradas pelo governo como mais valiosas e importantes do que as vidas humanas que nela habitam. Pois não são. As riquezas do solo da nossa terra só têm valor se propiciarem bem-estar para os povos que nela vivem, os primeiros brasileiros. Esses brasileiros querem paz e saúde, querem a floresta e os animais protegidos. De pouco valem os avisos e apresentação de dados e evidências feitos por organizações governamentais como o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) ou Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais). Para se desvencilhar desses dados, demissões de pesquisadores e técnicos competentes são a resposta mais comum do governo, para permitir “passar a boiada”, como disse o sr. ministro Salles. Mais fácil é o governo apoiar a grilagem de terras e garimpeiros clandestinos. As queimadas da Amazônia e Pantanal seguem, independente de avisos científicos que demonstram que a agropecuária brasileira cresce, sem necessitar aumento de terras. De pouco valem os apelos internacionais que chamam a atenção para o momento doloroso em que vivemos tanto em termos de conservação do meio ambiente quanto de direitos humanos. Para o governo federal, que sobrevive de falsas notícias (fake news), trata-se de uma conspiração internacional, mesmo contra toda a evidência científica.

A ciência no Brasil ruma para o desmonte, com cortes inimagináveis, sobretudo para a formação de novos pesquisadores. Os laboratórios de pesquisa estão sendo sucateados. Os cientistas, ignorados de uma maneira sem precedentes. O governo vem adotando políticas indubitavelmente anticientíficas. A pesquisa científica feita principalmente nas universidades públicas é totalmente negligenciada, com decisões que buscam o desmonte de uma estrutura que tem contribuído com a formação de competência, desenvolvimento e justiça social. O desprezo pelo conhecimento científico por parte do governo tem gerado efeitos catastróficos para o Brasil, seja na saúde, seja no meio ambiente, seja na educação. A pandemia de covid-19, que já foi considerada gripezinha nas palavras do sr. presidente, continua sendo negligenciada e matando centenas de brasileiros todos os dias. Ao mesmo tempo que o governo federal cobra pela produção imediata de vacinas, estabelece postura de discriminação aos centros de pesquisa que trabalham com os testes de segurança e eficácia de candidatas a vacinas, como a Fiocruz e universidades públicas.

O que falar da educação? Que projeto temos para esta pasta, cujos critérios utilizados para a escolha de seus dirigentes estão longe de ser técnicos? Não parece ser por acaso que a educação é onde o governo tem batido mais fortemente com seu discurso ideológico. Há muito por se fazer na educação, mas nada justifica o retrocesso à escuridão da ignorância. Além do caráter fortemente ideológico, somos ainda surpreendidos com cortes profundos nos últimos anos e que continua sendo apresentado para o orçamento de 2021 para a educação. Ou seja, tudo que já está ruim pode ainda ficar muito pior.

As universidades públicas brasileiras estão sendo sufocadas pelos enormes cortes de verbas. Assiste-se a uma clara tentativa de destruição das universidades públicas e da excelência acadêmica, por práticas crescentes que visam erodir da consciência coletiva da sociedade o importante papel transformador dessas instituições. Vemos com tristeza a autonomia das universidades sendo vilipendiada. Qual pode ser a intenção dessas ações além da destruição das universidades públicas no Brasil, um dos maiores patrimônios de nossa sociedade?

Não se faz uma grande nação sem ciência e educação. Não conseguiremos construir uma sociedade mais justa, inclusiva e rica para todos se nossa ciência e nossa educação forem sufocadas e estagnadas. Definitivamente, é urgente priorizar a produção e a apropriação do conhecimento por nossa sociedade; a ciência e a educação são os instrumentos cruciais para que as futuras gerações possam construir uma nação verdadeiramente soberana.

Não podemos compactuar com o estabelecimento do negacionismo científico na máquina estatal e com o desmonte de nossas instituições de pesquisa científica e agentes de fomento como vem ocorrendo no Brasil. A negação de evidências, da ciência e da educação pode comprometer o futuro do País por décadas. Independente de posições políticas, os ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Genética se colocam de forma totalmente contrária a essa postura indigna do governo federal brasileiro.

Fonte: https://jornal.usp.br/artigos/o-negacionismo-da-ciencia-compromete-o-futuro-do-brasil/?fbclid=IwAR3XrTn7TIO3K2COhh4HIhrNn8M2yOCazHj0MBu3bdMxtNMNH4RE3mWnmt8

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